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Fábio Porchat: "Bolsonaro não governa, ele se vinga"


Nem o coronavírus é capaz de parar Fábio Porchat. Em vez de reduzir a quantidade de projetos durante a quarentena, o ator, roteirista e comediante pisou no acelerador. Está em cartaz com a segunda temporada da série “Homens?”, no qual ridiculariza o machismo na TV a cabo e no streaming. Entrevista famosos e anônimos no programa “Que História é Essa, Porchat?” e promove lives com personagens que vão da Sandy ao ex-presidente Fernando Henrique Cardoso no seu perfil pessoal do Instagram. Produz conteúdo sobre a pandemia e conversa com idosos em “Que História é Essa, Vovó?” para os canais digitais do Porta dos Fundos. E ainda encontra tempo para dar entrevistas e participar das lives de outros artistas. Porchat estreou em 2005 com a peça “Infraturas” e participações no grupo “Comédia em Pé”, pioneiro do stand-up no Brasil. Um diretor viu o show e o convidou para ser roteirista do programa “Zorra Total”, da Rede Globo. Começava ali o sucesso popular de um dos artistas mais conhecidos do País. Hoje, aos 36 anos, Porchat ainda tem um sonho: quer fazer sucesso no exterior. Que história é essa, Porchat?


Essa entrevista por videoconferência me obriga a iniciar com uma pergunta óbvia: como tem sido esse período de quarentena para alguém com tantos projetos como você?

Estou conseguindo viver bem, sou privilegiado, logicamente. A empresa conseguiu manter os funcionários trabalhando de casa, e mesmo aqueles que ficaram em casa estão recebendo salário. Estou trabalhando muito, não só em propostas para a quarentena, mas também para transformar os projetos que funcionavam de um jeito em ideias que vão ter que funcionar de outro. Tenho escrito muita coisa, gravado Porta dos Fundos, feito minhas lives com convidados de todos os tipos. Já entrevistei Luciano Huck, Cid Moreira, Fernando Henrique Cardoso, Xuxa, Sandy, Fernando Haddad. No Porta dos Fundos a gente tem vídeos gravados até o final de agosto, mas achamos que valia abordar essa pandemia. Temos criado esquetes específicos e tem dado muito resultado.


Muitos artistas preferem ter uma abordagem intuitiva, autodidata, mas você gosta de valorizar esse lado mais acadêmico. Você faz cursos no exterior, é formado em Artes Cênicas. É importante ter uma preparação mais formal para fazer humor?


Totalmente. Acho importante. Não dá para ser guiado só pela teoria, mas é bom ter a teoria como ponto de partida. Dou muito valor a ler, aprender, ouvir quem sabe mais. Uma das coisas de que mais me orgulho nessa minha breve carreira é de ter me juntado a gente muito boa. Tento fazer parcerias com profissionais que admiro, como a Tatá Werneck, Dani Calabresa, Miá Mello, mulheres engraçadas, inteligentes, rápidas. Quando você se junta aos bons, você absorve o que essas pessoas têm.


Você fez parte do Zorra Total, mas ficou mais conhecido na internet com os vídeos do Porta dos Fundos. Qual a diferença entre o humor na TV e na internet? O que aconteceu com os humoristas da TV, eles não perceberam que aquele tipo de humor estava ficando velho?


Tem duas TVs, a TV fechada e a aberta. Pensando em TV aberta, estava funcionando. O “Zorra Total” dava 30 pontos de Ibope. A “Praça É Nossa” às vezes ainda é líder, dá 12 pontos dnuma quinta-feira à meia-noite. Tem atores muito bons, comediantes da nova e da velha geração misturados. Os bordões funcionavam, eram populares: “ Olha a faca!”, “Isso é uma bichona!”. Mas a televisão acabou não saindo da própria bolha. Como estava dando dinheiro e audiência, foi ficando. E no mundo lá fora havia uma demanda por outro tipo de comédia, além de comediantes que queriam fazer outro tipo de humor. Estava iminente que isso ia estourar, mas a TV recusou isso. O “Junto e Misturado”, programa na Globo que fiz com o Bruno Mazzeo, Gregório e Ian SBF, diretor do Porta dos Fundos, teve uma temporada escondida depois do Globo Repórter e foi cortado no meio da segunda temporada: “Ninguém vai entender, é humor de nicho”, diziam. Saímos de lá e fizemos o “Porta dos Fundos”, que se tornou um projeto muito popular, hoje temos mais de seis bilhões de visualizações.


Os humoristas do passado não precisavam se preocupar com o politicamente correto, como acontece hoje. Fica mais difícil fazer humor quando você tem que pensar que nas coisas que não pode dizer?


Não é mais difícil, mas dá mais trabalho fazer um humor inovador, que olhe para o futuro, não para o passado. Pode-se fazer humor com qualquer tema, de qualquer jeito, com qualquer pessoa, do mais proibido e agressivo ao mais leve e bobalhão. Mas fazer piada rindo que “mulher é burra”, a “bichinha”, o “crioulo”, esse é o tipo de humor que se fazia nos anos 1970, 1980 e que já acabou. Quero fazer o humor que se faz em 2020 e que não se faz ainda em 2022. O politicamente correto vem para ajudar a gente enquanto artistas. Não adianta ser hipócrita e dizer: “isso não pode, não tem graça”. Tem. Você pode fazer as piadas mais maldosas do mundo e ter graça. Mas você pode falar: não quero mais rir disso. Tanto é que as pessoas faziam piadas racistas e era engraçado. Lógico, para os brancos, não para os negros. A pior coisa que você pode fazer é falar assim: “Não vou fazer piadas com os gays, com os cadeirantes, coitados deles”. Ninguém é coitado. Se você falar para um cadeirante que ele é coitado, ele te dá um tapa na cara. Temos que incluir as pessoas, elas gostam de estar na piada. Claro que não gostam de ser humilhadas, de ter o ódio incitado contra quem elas são. E é isso que está acontecendo hoje em dia.


"Diziam que nosso humor era de nicho, que ninguém ia entender nossas piadas. Fizemos o ‘Porta dos Fundos’, que se tornou um projeto muito popular"




Você está com 36 anos e já fez muitas coisas: séries, filmes, essa história das lives, entrevistas. O que se imagina fazendo no futuro? O que ainda poderia despertar algum desafio na sua vida profissional?


Eu quero escrever para fora, produzir nos Estados Unidos. Quero que o meu conteúdo chegue ao exterior, que o “Porta dos Fundos” se espalhe pelo mundo. Me vejo ainda como comediante, mas também como apresentador. Acho que tenho como galgar esses espaços. Não sei ainda que tipo de programa, mas quero ficar atento ao que está acontecendo para poder cada vez mais mudar formatos, lançar coisas diferentes. Meu futuro é não ser mais do mesmo.



"Hoje não tenho interesse em política porque é quase como arranjar sarna para se coçar. Aos 60 anos, não sei se terei. Não sei se o Gilberto Gil sempre quis ser ministro da Cultura, mas ele foi excelente. Tem gente mais preparada que eu"



O que você acha da forma com que o governo do presidente Jair Bolsonaro trata a questão da Cultura?


É uma pena que o Bolsonaro não governa, ele se vinga. A indústria do entretenimento traz lucro. Seria muito burro da parte de qualquer governante prejudicar uma indústria que traz dinheiro. De cada R$ 1 investido na cultura, volta R$ 1,6 para o governo. Se você está ganhando dinheiro, gerando emprego e cultura, me parece um tipo de lugar onde é melhor não mexer. Mas mexeu. O governo imagina que cultura é o Antônio Fagundes, o Fábio Porchat e o Tony Ramos pegando dinheiro da saúde, colocando na Kombi e dando risadas diabólicas enquanto fumam charutos. Isso é uma ilusão que eles querem criar para incitar o ódio. A cultura é muito mais do que isso. A gente se vê no momento em que tem que explicar para as pessoas por que a cultura é importante para um país. Isso é uma loucura. Quando você lida com a estupidez, ela não é racional. Você não tem muito como argumentar. O idiota acredita no que fala e fica impossível dialogar. É muito desesperador. O que os profissionais de teatro e de cinema têm passado é muito duro. Eu tenho condições de me manter, mas estou falando dos outros 95% da classe, bilheteiros, camareiros, atores. Essas pessoas estão desassistidas, são famílias que não têm como ter esse sustento.

E esse governo está, para usar uma expressão bonita, “cagando baldes”. No fim das contas, ele está matando essas pessoas.


Fonte: IstoÉ / Repórter: Felipe Machado


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