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Manaus: Colapso além dos limites, somam mortes de médicos, superlotação e obediência ao juramento

Mortes de médicos: A carta enviada pela sociedade médica também discute o "apagão" de verbas emergenciais no Estado.


"Há de se ter clareza nas informações destes dados (financeiros) e não auferir capital político nessa conjuntura", diz o texto.


Ao menos dois médicos morreram na última semana, em Manaus, após serem internados com suspeita de covid-19. Um deles teve a doença foi confirmada, segundo o Conselho Regional de Medicina do Amazonas. Ainda não há resultado dos testes para o segundo, enquanto as mortes de outros três profissionais, segundo médicos do Estado, também estariam ligadas à doença.


"Entendemos que é nosso dever salvar vidas. Somos fiéis ao nosso juramento, mas não podemos, num quadro caótico como esse, sermos negligentes. Temos consciência que muito mais pode ser feito sem sacrificar a vida dos colegas e dos cidadãos. Quantos mais profissionais da saúde precisam perder suas vidas para haver mudanças na saúde pública do Estado?"


Uma das diretoras do conselho, a cardiologista Wladia de Albuquerque Silva, descreveu a situação dos profissionais de saúde sem equipamentos "como ir para a guerra sem nenhuma arma". Em hospitais superlotados e a falta de equipamentos , profissionais denunciam escassez de exames, salários atrasados e riscos enfrentados pelos médicos.



"A gente sabe que o Estado tem sua receita, sabe que esse valor foi repassado pelo governo federal, mas a gente não vê recursos sendo destinados para lugar nenhum aqui em Manaus. Estamos explodindo de casos. E não é uma situação só local, no interior é pior."


Boa parte do efetivo de atendimento de saúde do Amazonas não é concursada e oferece serviços terceirizados ao Estado por meio de cooperativas. Dois enfermeiros que trabalham neste regime disseram à reportagem que estão com salários atrasados há dois meses.

No fim de março, já em meio à pandemia, quando o Estado já tinha mais de 80 casos confirmados, enfermeiros fizeram um protesto em Manaus pedindo a regularização dos pagamentos.


Alguns afirmaram estar há oito meses sem receber o salário regular. A BBC News Brasil questionou o Estado sobre os atrasos, mas não teve resposta até a última quinta-feira (16).


LIMITE


Em uma semana, os casos confirmados da doença no Estado aumentaram 192% e os registros de óbitos subiram 360%. Esses dados colocam o Amazonas na fase de "aceleração descontrolada" do novo coronavírus, segundo o Ministério da Saúde.

Segundo o governo do Amazonas, 18 dos 61 municípios do interior têm casos da doença.

Na semana passada, em entrevista a jornalistas, o ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, disse que a situação em "Manaus nos preocupa muito".


Ao jornal El País Brasil, o governador do Estado, Wilson Lima, disse que "90% dos leitos estão com pacientes de covid-19". "É uma corrida contra o tempo", afirmou. Além dos pacientes, a corrida afeta o cotidiano e a saúde mental de profissionais de saúde, que tentam como podem dar conta da nova demanda.


Em uma semana os casos confirmados da doença no estado aumentaram 192% e o registro de óbitos 360%


"A gente tenta o máximo possível preservar a vida do paciente, até se expondo em algumas situações", diz uma profissional. "Apesar da nossa situação ruim de material e tudo mais, o material humano está sendo nota 10. Vejo cada um tentando o máximo para salvar uma pessoa e enfrentar uma situação que chega no limite. É muito triste."


Para médicos ouvidos pela reportagem, a crise expôs um problema antigo no Estado.


"A gente tinha até desistido de (esperar) alguma ação dos governantes, porque eles sempre usam a saúde como massa de manobra para poderem se eleger, mas de efetivo não faziam nada. Isso tem anos já", diz uma médica concursada.

"Agora, a pandemia do coronavírus mostrou o tamanho da deficiência da saúde aqui no Amazonas. E só tende a piorar."


OUTRO LADO


Procurada por telefone, email e mensagem de texto durante a última quinta-feira (16), a secretaria de saúde do Amazonas não respondeu aos questionamentos da BBC News Brasil. Após a publicação da reportagem, a pasta enviou os pontos a seguir:


USO DE VERBAS FEDERAIS


  • Dos recursos federais destinados ao Estado do Amazonas, foram contratualizados aproximadamente R$ 21 milhões, conforme detalhamento abaixo. Os demais recursos estão destinados para outras ações em processo de contratualização.

  • Contrato locação de Ambulância Tipo D (de suporte avançado) : R$ 10,3 milhões (180 dias)

  • Aquisição de Testes Rápidos: R$ 3,8 milhões

  • UTI aérea: R$ 4,1 milhões

  • Aquisição de colchões para uso hospitalar: R$ 104,5 mil

  • Materiais Hospitalares para estruturação de leitos no Hospital Chapot Prevost: R$ 11,2 mil

  • Pagamento de mão de obra por meio de parceria para fabricação de máscaras descartáveis: R$ 71 mil

  • Manutenção de câmara de refrigeração: R$ 15 mil

  • Locação de hospital de retaguarda (90 dias): R$ 2,6 milhões

ATRASOS EM SALÁRIOS


Os profissionais citados não recebem salários, mas pró-labore, pois são sócios das empresas e cooperativas. O prazo contratual prevê até 90 dias para o pagamento de serviços prestados. A atual gestão vem mantendo a regularidade no pagamento mensal das empresas médicas de modo que cada uma receba pelo menos uma competência mensal que, necessariamente, não será a do mês corrente.

Ressalta-se que o Amazonas é um dos poucos estados da federação que nunca atrasou salário de servidores públicos, mesmo diante das sucessivas crises econômicas dos últimos anos, que levou parte dos Estados a atrasar e até parcelar salários.


FALTA DE EQUIPAMENTOS


Apesar do aumento do consumo em até cinco vezes após a epidemia (hoje se consome em uma semana o que era consumido em um mês) e a escassez do produto no mercado mundial, o Amazonas ainda vem conseguindo manter até aqui um estoque de EPIs e o abastecimento de todas as unidades de saúde da rede estadual. Todavia, tem sido orientado aos gestores o uso racional e adequado dos EPIs - seguindo o que recomenda a Agência Nacional de Saúde (Anvisa) - para que não haja desabastecimento.


As medidas, obviamente, não agradam aos profissionais, uma vez que o uso dos produtos está sendo controlado.


O que tem se observado é que, por medo da contaminação, os profissionais que atuam dentro das unidades têm exigido equipamentos diferentes daqueles definidos para cada ambiente e situação recomendada pela Anvisa.


É o caso do macacão e da máscara N95, esta última indicada para uso em procedimentos que produzem aerossóis, mas que é reivindicada por todos, inclusive profissionais para os quais o equipamento indicado é a máscara cirúrgica.


O abastecimento vem sendo garantido com aquisições pelo Estado e Ministério da saúde, além de doações e de parcerias, como a que está em curso com a Universidade do Estado do Amazonas (UEA) para a produção de EPIs para a rede estadual de saúde.


SUPERLOTAÇÃO DE EMERG~ENCIAS


Levando em conta que, além da covid-19, o Amazonas também enfrenta o período sazonal, que vai de novembro a maio, das Síndromes Respiratórias Agudas Graves (SRAG) por outros vírus - Influenza A e B, Metapneumovírus, Adenomavírus, Vírus Sincicial Respiratórios e outros - , foi criado um fluxo de atendimento na rede de urgência e emergência da capital-Manaus para acolhimento e manejo adequado desses casos e do covid-19.


Todo paciente que entra em pronto-socorro, serviço de pronto-atendimento (SPA) e Unidade de Pronto Atendimento (UPA) passa por uma triagem e aqueles que apresentam sintomas respiratórios que necessitam de cuidados são encaminhados a espaços chamados "sala rosas". Nessas salas eles recebem o atendimento adequado segregados do restante do hospital e são testados e classificados enquanto aguardam a remoção para o serviço de referência, caso necessitem.


Por isso, tem sido recomendado que só busquem a emergência hospitalar pessoas com sintomas mais graves que realmente necessitem de atendimento médico. Para sintomas leves é recomendado que fiquem em casa.


Para reduzir a superlotação dos serviços de emergência, o Governo do Amazonas lançou em 6 de abril um chatboot com atendimento por telemedicina onde as pessoas podem acessar um aplicativo para receber orientações e até falar com um médico que vai dar as orientações sobre o que fazer diante de sintomas e qual o momento de buscar o serviço hospitalar. Até quarta-feira (15/04), 5.790 pessoas foram atendidas por meio do serviço.


Nesta sexta-feira, o governo inicia um novo processo de triagem externa em tendas montadas fora dos hospitais para garantir que só acessem a unidade as pessoas que realmente estejam necessitando de atendimento de urgência e emergência.

Mesmo com as limitações e a grande demanda, as unidades têm se esforçado para dar o atendimento adequado a quem precisa.


Fonte: BBC BRASIL


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